Por André Justino*
Não tive a oportunidade de ver São Lourenço da Mata ser
cortada por trens de passageiros. Ainda menino, eu vi na ferrovia que segue
pelo centro da cidade, os trens de carga passando ou ainda, lá da casa em que
cresci no Parque Capibaribe ouvir a buzina das locomotivas. Na velocidade em
que crescemos,eu e tantos outros filhos dessa terra, ano após ano iam
diminuindo o número de conduções férreas, até que a via, que ainda existe,deixou
de ser usada.
Se no passado, ainda antes de minha infância, trem era
sinônimo de progresso. Com a desativação das ferrovias da Zona da Mata norte e
sul e as duplicações das rodovias BR 232 até Caruaru e 408 até Carpina, apostar
nesse modal de transporte parece coisa do passado, algo sem sentido. Mas, circular
pela Região Metropolitana de ônibus é constatar que coisa sem sentido é as
cidades e o Estado brasileiro continuar despejando rios de dinheiros em
rodovias, em beneficio do excessivo uso de veículos particulares, que propicia
ao cidadão incontáveis horas em engarrafamentos ou das empresas rodoviárias,
que são um exemplo de como se desrespeitar o usuário, com poucos ônibus, caros
e absurdamente desconfortáveis.
Interesses terão de ser confrontados, a exemplo da conhecida
família Chaves, que em São Lourenço da Mata comanda a Mobibrasil. A proposta
inicial é de reativar a malha férrea e adequá-la, via e estações, ao transporte
de pessoas que por fim se integra com o sistema metroviário do Recife. São
Lourenço, Paudalho e Carpina ficam entre as cidades que seriam beneficiadas
diretamente, abrindo oportunidades de acessibilidade pública a um baixo custo e
retorno no desenvolvimento econômico, turístico e cultural da região.
O tema mobilidade urbana nunca teve uma centralidade tão
grande, e não há alternativas para superar os gargalos, sem que se enfrentem os
interesses dos que se beneficiam do caos que vive as cidades. A começar pela
relação promiscua entre governos/candidatos e empresários rodoviários, por meio
dos financiamentos de campanha. E em São Lourenço da Mataquantas vezes não se
viram dobradinhas eleitorais compostas entre o Prefeito Ettore Labanca e o
Deputado Federal José Chaves? Transporte público deve ser enxergado como um
serviço e não como um negócio, é um direito fundamental que dá acesso a outros
direitos, como educação, saúde, trabalho, etc.
É possível que São Lourenço tenha metrô/trem, mas para que
isso aconteça é necessário o envolvimento direto da população nesta
reivindicação. Do contrário, o jogo de interesses financeiro continuará prevalecendo e a população, entupida nos ônibus,
perdendo.
*André Justino é
jornalista e Presidente do PSOL em São Lourenço da Mata
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