segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A HIPOCRISIA DO EXTREMISMO


                  
             Por Marco ALBANEZ*

               Inicialmente, gostaria de frisar que por duas vezes – em 1968, consegui escapar, junto com outro colega, quando estávamos sendo levados para o QG, mas em 1970, não teve jeito – fui detido pelos militares por causa dos movimentos estudantis na época em quando estudava no Ginásio Pernambucano. Sorte minha que meu padrinho era o Capelão do Exército Padre João Barbalho durante o Regime de Exceção, Ditadura, “Democratura” ou sei lá o quê, que “vigorou” de março/64 a fevereiro/85 – ou 1989? Depois, quando estava sendo interrogado pelo tenente Linhares no antigo quartel da Caxangá (não dá para esquecer), ele me perguntou se eu era comunista. Respondi, inocente e irresponsavelmente, “sei lá que porra é isso!”. Não sabia mesmo. E, por fim, votei em Lula desde a sua primeira candidatura (1989) até a sua primeira vitória (2002), pois via nele a esperança de melhores dias para o povo brasileiro e acreditava no que ele dizia – salário mínimo digno, correção das aposentadorias, diminuição das alíquotas do imposto de renda, fim da Cide, salário digno para os servidores públicos, apuração das privatizações no Governo do “enganador polido” FHC (a quem sucedeu, cujo único legado foi o Plano Real), enfim, votava, brigava, lutava...  Finalmente ele ganhou a eleição. Pois é, deu no que deu.

               Pois bem. Como oposição, o “Partido dos Trabalhadores, Seus Donos, Os Xiitas & Cia Ltda”, era da extrema esquerda e contrário a tudo ao que hoje se faz, inclusive e principalmente com relação às “privatizações” – coincidentemente, com os “cumpãnheros” muito bem beneficiados. Era promessa de navalha nos corruptos. Corte no pescoço. Sem piedade e sem remorso. Greves? A favor de todas e ainda insistia nas paralisações de todos os setores – comércio, indústria, serviços... e até coveiros. Não concordava com aquele extremismo, mas paradoxalmente continuava votando nele. Tudo mudou. Até a greve dos caminhoneiros foi “ilegal”, “vergonhosa”, “arbitrária” e prejudicial à população. Greve dos servidores públicos? Nem pensar: cortar ponto, descontar dias parados, demitir, exonerar, advertir, suspender... Vieram os escândalos – e já são mais de 40 – e dentre eles a Operação Lava a Jato (na agulha, BNDES, Eletrobrás, Fundos de Pensão... ufa!) que, diante do seu nervosismo; do seu repúdio ao ministro da justiça que “não controla a Polícia Federal”; do envolvimento do filho Lulinha, que passou de funcionário de zoológico para se tornar “negociator” (ou empresário de negociatas?) e se tornar  milionário; da sua nora, que recebeu R$ 2,0 milhões para não sei o quê; da compra de um apartamento tríplex em Guarujá (dizem as más línguas que ele tem ate “piscina vertical”) pago pela Construtora OAS; enfim, de uma série de acontecimentos que estão-lhe deixando com o nervo a “flor da pele”, ao que parece, está chegando a hora do ex-presidente Lula prestar contas a justiça. Ou, como costuma dizer seu “Biu do Munguzá”, a sua ficha caiu.
               O prólogo e o parágrafo precedente, talvez possam parecer de grande tamanho para o assunto central. Pode ser! Aliás, nem seria o meu assunto para hoje, mas o “pau continua cantando” e resolvi dar minha “precária” opinião.
               A exemplo de vários segmentos da sociedade, fui surpreendido com a publicação de uma notícia em todos os jornais, telejornais, rádios e Portais com a divulgação da “Cartilha Petista”, pela qual o PT ataca, “com ódio e sem medo”, o juiz Sérgio Moro, o ministro do STF, Gilmar Mendes, parte da imprensa, além de criticar procuradores e delegados da Polícia Federal. No documento, o “Paladino da Justiça”, juiz Sérgio Moro, é citado quase 20 vezes. O ministro Gilmar Mendes, quatro vezes, acusando-o de ser parcial, com manobras e declarações antipetistas,  o que não é compatível com o cargo que exerce. Mais: que mente sob a proteção da toga e afronta a consciência jurídica (a “Cartilha” esqueceu que a justiça não tem consciência). Vai mais além. Afirma que todos os ex-dirigentes da Petrobrás – presos, foragidos, “escondidos”, beneficiados com delações premiadas etc –, eram altos funcionários dedo PSDB (leia-se, FHC). Dizendo que o documento “em defesa do PT, da verdade e da democracia” relaciona as conquistas do partido, enumerando-as “a partir do combate a corrupção” e acusa todos de “querer criminalizar o partido, seus dirigentes e o seu maior expoente, o ex-presidente Lula”, o “livrinho” deixa todos perplexos. E, que me perdoem os insanos que escreveram a “Cartilha da Moralidade Petista”, que ataca ferozmente os tucanos de São Paulo por estarem há 12 anos no poder (se faz besteiras, estão certos ou errados – e não são “Santos” –, não é a questão do meu artigo), mas o buraco é mais embaixo.
               O que me intriga no Partido dos Trabalhadores, é a mudança radical do “programa” de governo e da política partidária. Se antes era de oposição ferrenha e extremista, hoje não passa de um partido de “quase” extrema-direita, pois sem o menor pudor faz acordos – e não alianças – até com o satanás para alcançar seus objetivos. (Apenas um exemplo: alguém imaginou que um dia o PT iria privatizar aeroportos? Que o ex-presidente Lula estaria visitando Paulo Maluf em sua casa? Que estaria com Sarney, Collor, Renan e outros bandidos da “luz verde e amarela?”) Não sei, mas gostaria de saber e feliz daquele que sabe: seria o início do fim? Bem, pelo menos até agora, oficialmente, não privatizaram a Casa da Moeda. Mas há um “provérbio” que diz: no dia em que os Estados Unidos forem presididos por um negro; a igreja católica tiver um Papa argentino; e o “PT tornar-se um partido com pragmatismos indecente e vergonhoso”, o mundo estará perto do fim. Puxa vida, será que vou ter tempo de ver este artigo publicado?!
               Malditos sejam esses germes da política brasileira que estão destruindo o Brasil. Danem-se... Que fiquem na Papuda... Que continuem nas prisões de Curitiba a espera dos demais... Que explodam... Que desapareçam da minha vida... e do dia a dia dos brasileiros... (E estão. Amém!)
               Aliás, na década de 60, quando era coroinha da Igreja de São Lourenço Mártir, todo dia 10 de agosto ia, em carro da prefeitura (qualquer que fosse o prefeito) buscar Dom Helder Câmara para celebrar a missa do dia do nosso Padroeiro. Numa das viagens, lhe fiz uma pergunta e ouvi duas respostas do então arcebispo. A pergunta: “quem era Deus e quem era Jesus Cristo” e que não aceitaria é o “Pai, o Filho e o Espírito Santo” como resposta. Ele colocou a mão na minha cabeça e disse: “pense”. “Apenas pense”. E completou dizendo mais ou menos que: “quando a pessoa tem um sonho, esse sonho não deixa de ser um sonho. Quando ela tem o mesmo sonho duas vezes, ainda assim será um sonho. Mas (eis o “mas” de novo), quando ela tem o mesmo sonho três vezes, esse sonho pode deixar de ser um sonho e vir a se tornar uma realidade”. (Como o povo brasileiro está sonhando demais...)
                Como não posso, não devo e nem tenho formação para matar essas desgraças que estão acabando com o meu sonho, me conforta – pouco, mas me conforta – fazer alusão a um homem que, ao contrário da esmagadora maioria dos “donos” do PT, se tornou o ícone da liberdade, da decência, do idealismo, da honradez... num país (ex-colônia britânica) extremamente capitalista, racista, poderoso... cuja Constituição foi discutida e aprovada em 1787, que só tem cinco emendas e é respeitada. (É a segunda mais antiga constituição em vigor no mundo, ficando atrás apenas da de San Marino, que vigora desde 1600.) É a minha resposta a esses pústulas que não têm sentimento, a esses “cidadãos” que me causam nojo...?
                 É “complicado” dar uma lição de humildade – e de moral – aos extremistas de um partido político no qual acreditava, pois me vem à lembrança a figura de Martin Luther King, nascido em Atlanta (Geórgia) em 15 de janeiro de 1929 e assassinado, aos 38 anos, no dia 4 de abril de 1968, em Memphis (Tennessee). Pastor protestante e ativista político estadunidense, tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e no mundo, com uma campanha de não violência e de amor ao próximo. Seus esforços levaram à Marcha sobre Washington de 1963, onde ele fez seu discurso "I Have a Dream" (“Eu tenho um sonho”). Poderia ter sido – quem sabe! – o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, pois a sua luta era alicerçada num ideal que “contaminava” não apenas as pessoas negras, mas, também, a maioria branca da população norte-americana. Igualmente, lutou contra a pobreza e contra a guerra do Vietnã. Não era um enganador, nem um cínico e muito menos um mentiroso... Sabia e ouvia tudo, era respeitado, não tinha sido metalúrgico e, em 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
              E por que falar nele se o assunto é outro? Simples. Num dos momentos mais difíceis da sua trajetória vitalícia, Luther King, num gesto de grandeza – o qual pouquíssimos políticos brasileiros teriam coragem de assumir –, não agrediu, não caluniou, não difamou, não injuriou, não maculou a imagem dos que “não lhe viam com bons olhos” e muito menos baixou o nível de suas palavras contra aqueles que queriam o fim da sua luta. Muito pelo contrário. Num dos seus empolgantes discursos, olhou para cima, como estivesse buscando a luz divina, citou palavras do Senhor e deu uma lição de vida (que Deus me perdoe, mas não consigo “atendê-lo”, sobretudo quanto a esses bandidos que roubaram e continuam roubando o meu, o seu e o nosso dinheiro – levando-nos a escuridão –, e muito menos aos ingratos, verdadeiros canalhas que têm como habitat o “cemitério” da podridão. Realmente, não consigo). Disse ele:
“Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e perseguem.”

*Marco ALBANEZ

É advogado (OAB-PE nº 7.658) e jornalista (AIP nº 2.163 e DRT/PE nº 3.271)

8 comentários:

  1. Rivaldo Paiva
    Excepcionais suas palavras..... Parabéns amigo. Ótimo texto, coeso e verdadeiro. Orlando Parahyim, médico e escritor dizia-me certo dia que "o importante no escrito não é o estilo e sim a verdade contida nele". Meu amigo, doutor Orlando foi um mestre e pensador além de cientista na medicina, citado no mundo inteiro (vide Google).
    Parabéns e um grande abraço.
    Rivaldo

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  2. Dr. Marco Albanez, seu artigo desta semana é para ser guardado, pois trata da história com sabedoria. É também um alerta para nosso povo que deverá despertar contra esses falsos "salvadores da pátria".

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  3. Muito boa colocação !

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  4. Prezado amigo.
    O PT, que em governos passados, como bem dizes, era oposição ferrenha e vendendo a "ilusão"para os brasileiros de bons moços e que iriam fazer o país mudar e crescer..., venceram as eleições, passando a cometer toda espécie de crimes de diversas tipificações. Agora que cumprem-se a lei, responsabilizando criminalmente essa quadrilha do PT, eles vêem falar que estão novamente sendo perseguidos injustamente. Duvido todos serem pegos pela lei, mas temos obrigação nas eleições que se aproximam, escolher representantes dignos que honrem o cargo que ocuparem.
    Forte abraço. Anselmo Gouveia.

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  5. É incrível como você, Marco, consegue prender a nossa atenção na leitura dos seus artigos, sempre corretos, bem escritos e abordando temas de grande relevância e de interesse para muitos de nós. Eu também me decepcionei com o PT. É a vida, amigo. Foi Wilson "Cabeção" (kkkkk ele vai se arretar) que me informou sobre o Blog.Um forte abraço. Carlos Holanda de Santana.

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  6. A exemplo de alguns colegas da prefeitura, tenho que reconhecer que o cara escreve muito bem.

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  7. Sensacional Marco!

    Meus parabéns.

    Abraço.

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