Por Marco ALBANEZ*
No estudo da criminologia, há todo tipo de
crime e de quem o pratica. Portanto, não é difícil falar de alguns bandidos que
são profissionais na prática do crime do “colarinho branco”, o qual está
relacionado, principalmente, a fraudes, ao uso de informações privilegiadas, a subornos
e a atividades praticadas por pessoas instruídas cultural e financeiramente, que
muitas vezes detêm cargos públicos, políticos ou possuam influência no governo.
Por isso, exatamente por isso, possuem essa designação, até porque geralmente
vestem terno e camisa social, “confrontando”, dessa forma, uma caracterização
atípica do que geralmente se tem de um “bandido comum”. A atividade
delituosa desses germes atinge não só negócios entre empresas ou instituições
públicas, mas a própria confiabilidade do sistema financeiro brasileiro, o que
gera verdadeira insegurança estatal. Por isso que a Lei nº 7.492/86 é conhecida
como a “Lei dos Crimes de Colarinho Branco”. (Mas ela foi ampliada, com o
decorrer do tempo, para ser aplicada contra qualquer indivíduo que venha a
lesar a ordem econômica.)
Os diversos tipos de crimes de ordem econômica têm no polo ativo pessoas
de alto prestígio e confiança das autoridades governamentais que se utilizam de
uso de informações indevidas, pagamento de propina, favorecimentos ilícitos,
subornos e fraudes. São pessoas que detêm alto conhecimento legislativo, das
lacunas que a Lei não alcança e que com isso podem realizar as atividades
criminosas. A comparação talvez possa parecer um pouco esdrúxula, mas quando um
criminoso mata alguém há uma notória repercussão pela barbárie, afinal ele
tirou a vida de um ser humano. Mas analise por outro ângulo: quando uma pessoa
de alta influência desvia dinheiro público – e no Brasil tem sido uma regra –,
as consequências podem ser piores do que assassinar uma pessoa, pois são
recursos rapinados que deveriam ser investidos em medicamentos, hospitais,
postos de saúde, saneamento básico, construção de novas escolas, urbanização em
áreas consideradas críticas, como favelas, ou mesmo em locais de alto risco em época
de chuva, como a construção de muros de arrimo... e que poderiam salvar
milhares de vidas. Dá para entender?
Poucas
pessoas alcançam o grau desse tipo de crime e as suas consequências. Pois
saibam os “céticos” e os “incautos” que ele atinge muito mais do que a moral e
os bons costumes, já que são verdadeiros macrocrimes pelo fato de detonarem as
estruturas de produção, de circulação e de consumo das riquezas do país, ou
seja, massacram os interesses difusos e coletivos de uma sociedade. Como não
carregam o estigma do criminoso comum, sendo homens de negócios, pessoas “respeitáveis”,
que se vestem bem, não convivem com os criminosos “normais”, enfrentam leis mais frágeis, não nutrem
sentimento de vergonha por suas condutas ilícitas, têm poder e bom status social, acabam por não se
atribuir a chancela de criminoso. Aliás, “aproveitando a deixa”, seria
interessante que essas pessoas – “incrédulas” – fizessem um estágio em
prefeituras, câmaras municipais, hospitais e órgãos públicos de 2º e 3º escalões
(sem esquecer o governo central)... e, a título de exemplo, pudessem assistir
como, na maioria das vezes, ocorre uma licitação e/ou concorrência, mesmo
através de pregão eletrônico. Elas assistiriam e achariam “uma beleza”, mas não
saberiam o porquê do resultado.
Já tendo raízes “fincadas” nos três poderes
constituídos (num mais que os outros), a primeira coisa a se pensar é que o
crime organizado, a lavagem de dinheiro, enfim, a corrupção generalizada “já
fazem parte da cultura brasileira”. E fazem mesmo. Em geral, os crimes de
colarinho branco dizem respeito à violação da confiança do servidor público que
trai a população, do político que atua contra interesses dos cidadãos, da
classe médica ou técnica que vai contra o interesse dos pacientes, da empresa
que joga contra os acionistas, das grandes corporações contra os consumidores,
dos magistrados que vendem sentenças, da legislação e decretos que favorecem um
grupo econômico patrocinador do chefe do Executivo. Tudo isso contra vítimas
frágeis e sem poder de reação.
Não, não vou falar sobre o Escândalo do “mensalão” e nem no ministro –
agora – aposentado Joaquim Barbosa. Não, também não vou falar da Operação Lava
a Jato e muito menos do juiz Sérgio Mouro. São duas pessoas, dentre muitas
outras, que merecem um elogio especial tendo em vista o que o primeiro fez e o
segundo está fazendo: levando esses canalhas para a cadeia, de onde nunca
deveriam sair. Sei que é difícil dizer isso como advogado, mas falo como
jornalista: que se dane os 30 anos como pena máxima (e nunca cumprida) da
Constituição. E não vou falar – muito menos – nesses “cidadãos” que usam paletó
e gravata que podem ser chamados de bandidos com legitimidade, pois cometem
crimes como parte integrante de sua atividade considerada lícita, a vista de
todos, e, ainda, com respeito público.
Vou fazer alusão ao posicionamento do ministro do Supremo Tribunal
Federal José Antonio Dias Toffoli: ele é defensor da substituição da pena de
prisão por punições alternativas em casos de crime sem violência –
explicitamente no caso dos ladrões do colarinho branco. Este posicionamento
gera polêmica estre os aplicadores do Direito, na medida em que uns acreditam
que a Lei deve ser mais branda com criminosos que não são violentos, e outros
defendem maior rigor por se tratar de crimes que tem efeitos devastadores para
a sociedade de forma geral. Ele entendeu, inclusive, que deveriam ser aplicadas
penas alternativas para os condenados do “mensalão” e ainda afirmou que colocar
essas pessoas na cadeia seria um exagero por parte do judiciário que estaria
remontado ao período da Inquisição. Pois é, quem pensa assim é um jurista de
notável saber jurídico. Mas (já notou que há sempre um mas nessas horas?)
esqueceu que pessoas como o ex-todo poderoso José Dirceu foi condenado no
“mensalão”, preso, depois conseguiu liberdade condicional (regime semiaberto) e
ainda assim roubava a Petrobrás e por isso foi condenado de novo e voltou a
prisão. Mas em linha contrária ao pensamento do ministro do STF, está o
Presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, Alexandre de
Assis, que afirma que somente a prisão coíbe a ação criminosa de sujeitos que
prejudicaram e continuam a prejudicar milhões de vidas com o desvio do dinheiro
público e que a liberdade deles representa um enorme risco à população. Foi
mais além: se a sanção a crimes como o de colarinho branco fosse de multa,
haveria muitas pessoas dispostas a arcar com o risco.
Quem tem razão é Sebastião Wanderley.
Nascido em Recife, é militar do Exército (reformado), amante da literatura e
das artes, além de pintor, compositor e músico amador (está escrevendo o seu
primeiro livro – um romance). E por ser um literário, pode até parecer
estranho, mas é dele uma frase que sintetiza a “salada” das gatunagens política
e profissional, cujo principal ingrediente é... Imaginem!
*Marco ALBANEZ
É
advogado (OAB-PE nº 7.658) e jornalista (AIP nº 2.163 e DRT/PE nº 3.271)

Marcos
ResponderExcluirPor tudo isto, é que, o judiciário deveria comportar carreira exclusiva !!
Tem que acabar com o absurdo do quinto constitucional, que é uma
aberração, a indicação de amigos para os Tribunais de Contas, e, aprovação
da presidência, dos juízes das cortes superiores e, governadores, dos desembargadores.
Por que as mesas diretoras das câmaras (federal e municipal), senado e assembléias, não são
submetidas à aprovação de terceiros ??
Se o congresso tem que aprovar o juízes dos tribunais superiores porque assembléias não
aprovam os desembargadores ????
O vento que venta em cima, devia ventar em baixo !!!
Enquanto esta patifaria prevalecer, só vai haver problema !!
E , muita gente roubando, roubando muito, com o sem colarinho !!
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ResponderExcluirPrezado Marco
ResponderExcluirFelicito o nobre amigo pela nitidez e facilidade de entendimento da aula de direito constante nesse artigo.
Façamos uma retrospectiva de outros escândalos ocorridos no país e rogamos para que estes mais recentes não acabem em pizza, pois a pressão dos blindadores é intensa.
Forte abraço.
Anselmo Gouveia.
Dr. Marco Albanez, mais um artigo da sua lavra que nos alimenta de conhecimento que, infelizmente não chega ao grande público. E, assim , continuam esses maus "políticos" causando tanto mal a toda a população.
ResponderExcluirQuem dera tivesse este blogueiro/professor a eloquência de Dr. Marcos Albanez. Pontua de tal forma o contexto que, mesmo os que discordam de suas colocações são obrigados a concordar os fatos. De fato o hábito não faz o monge, o que corrobora com as suas afirmações... Enfatiotados em paletós do melhor corte, quem poderia dizer que esse muitos senhores (representantes populares /kkkkk) não passam senão de locupletadores de verbas públicas. Responsáveis (não todos) pelos desmandos financeiros. Com colarinhos de aparencia branca, que aposto, ao retira-lo... estão marcados com a sujeira de seus "cangotes" mal lavados. Diria Dr. Marco... que seu texto é um dos melhores que li até agora, senão o melhor. Grande abraço... Você sabe do grande apreço que nutro pelo amigo. Quem dera... pudesse eu... ter a eloquência de Dr. Marco.
ResponderExcluirObrigado, amigo, pelas suas palavras e elogios. Seria hipocrisia se dissesse que elas não me deixam mais feliz... e mais forte.O que escrevo não é "minutado" e muito menos copiado - salvo afirmações e frases que, por deveres legal e moral, tenho que citar as suas fontes. Nos artigos, coloco o que vem do coração e a sua causa é uma verdade cruel que dificilmente alguém encontra argumento para contestá-la, como bem você disse. Quanto as consequências, são os protagonistas que dão-me o furor que tem como alicerce o fato de ser brasileiro e "me encontrar-me eu" decepcionado e triste com esse quadro que me leva a uma triste conclusão: luto por tudo que acredito, mas tenho - como muitos - encontrado dificuldades em achar o antídoto e/ou o antibiótico para curar o meu querido país com a matança dessas bactérias que não param de se multiplicar. Infelizmente!
ExcluirVocê mostra uma segurança e um conhecimento ímpares em seus artigos semanais. As estatísticas, a História, a verdade atrás da política etc. E o que me chama muita atenção é que você tem a Estilística nata, como se fosse um linguista. Usa os sinais de pontuação com uma proeza espetacular, conseguindo, assim, uma intimidade maravilhosa entre você e o leitor. Adoro as segundas!!!
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