Segundo o poeta, crítico contumaz do
Partido dos Trabalhadores, a era ideológica terminará com a atual
presidente, que será sucedida por lideranças de perfil pragmático, como
Eduardo Paes, Sergio Cabral, Eduardo Campos ou Aécio Neves; ele afirma
que o mensalão tirou da jogada o que restava do petismo
O domínio petista está chegando
ao fim na política brasileira. Ao menos, é essa a aposta do poeta
Ferreira Gullar, que enxerga a ascensão de uma geração marcada pelo
pragmatismo político, que teria como principais lideranças Sergio
Cabral, governador do Rio, Eduardo Paes, prefeito da cidade, Eduardo
Campos, governador de Pernambuco, e Aécio Neves, senador mineiro.
Previsão correta ou wishful thinking, que reflete mais os desejos do
poeta do que a realidade? Leia:
Fim da geração ideológica
Ferreira Gullar
Até onde consigo compreender o quadro político brasileiro,
percebo que nos aproximamos de uma mudança importante. É como se
acabasse uma fase e começasse outra. Aliás, já tentei formular essa
minha suposição quando escrevi que a geração ideológica, que lutou
contra a ditadura militar, já cumpriu seu papel, e agora dará lugar a
uma outra, posterior àquele conflito.
Não sou cientista político nem pretendo estar dizendo algo
incontestável. No entanto, parece-me evidente que se inicia um novo
período, com outros protagonistas. É claro que essas coisas não se dão
com óbvia clareza nem como um corte abrupto, que assinale o fim de uma
etapa e o início de outra. Mas a nova etapa já se insinua.
Em artigo aqui publicado há algum tempo, arrisquei afirmar
que PT e PSDB --os dois partidos que, no apagar das luzes da ditadura
militar, surgiram como oposição clara à política do regime-- já
cumpriram seu papel: o PSDB, com o governo Fernando Henrique Cardoso, e o
PT, com o de Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro ajustou a economia e
criou as condições para a manutenção do regime democrático; o segundo,
embora tenha se oposto àquelas medidas, entendeu que o caminho certo era
aquele e deu prosseguimento ao que havia sido implantado.
Se o PSDB chegou primeiro ao governo do país, foi porque
sua atitude moderada atendia à visão da maioria do eleitorado. Lula, por
seu radicalismo, sofreu três derrotas consecutivas e, em face disso,
impôs a seu partido a moderação necessária na campanha política de 2002.
Com isso, ganhou as eleições e assumiu a Presidência da República.
No governo, decidido a nele ficar para sempre, evitou a
aliança com o PMDB, para não dividir com ele o poder, e comprou os
deputados de partidos menores, aos quais ditava suas decisões. Como não
teria cabimento impor ao país as medidas esquerdistas inviáveis, optou
pelo populismo, ou neopopulismo, no estilo de Hugo Chávez.
E como esse, tentou mudar a Constituição, a fim de
candidatar-se ao terceiro mandato, mas a pesquisa que encomendou com
esse propósito o fez desistir da ideia. Elegeu Dilma Rousseff, que foi
uma invenção sua, já que ela jamais disputara qualquer eleição.
O escândalo do mensalão tirou da jogada algumas das
figuras mais destacadas do petismo, o que complicou, para Lula, escolher
um candidato que lhe garantisse o poder. Por isso, escolheu Dilma como
sua substituta eventual, o que torna particularmente inevitável o
encerramento dessa etapa pós-ditadura.
Mesmo que a saúde de Lula o garanta, dificilmente voltará
ao poder. Sem falar na delação premiada de Marcos Valério, que o
apontaria como o verdadeiro chefe do mensalão. Dilma, por sua vez, após o
segundo mandato, se houver, terá que se retirar de cena, uma vez que
não tem muita vocação para líder.
Por sua vez, Fernando Henrique Cardoso, que prolongara seu
governo com a reeleição em 1998, tentou passar o bastão a José Serra e
depois a Geraldo Alckmin, que foram derrotados seguidamente por Lula. Na
referida crônica em que tratei desse tema, afirmei que José Serra não
teria chance de chegar à Presidência da República. Como se viu, não pôde
chegar sequer à Prefeitura de São Paulo. Com isso, encerrou-se a
possibilidade de o PSDB voltar à Presidência da República.
Assim, daquela geração ideológica, resta Dilma Rousseff,
que certamente tentará reeleger-se em 2014. Quer ganhe, quer perca, com
isso se encerrará a etapa dessa geração no governo do país.
É impossível determinar em que momento exato isso se
consumará, mas parece evidente que novas lideranças políticas começam a
se impor no cenário nacional, como Eduardo Campos, Aécio Neves, Sérgio
Cabral Filho e Eduardo Paes.
Eles constituem uma geração não ideológica, caracterizada,
por isso mesmo, pelo pragmatismo político, como se evidencia em suas
respectivas atuações como governantes. A fase da ideologia passou.
É por perceber isso que Lula se preocupa, hoje, em dar
força à candidatura de novas figuras do seu partido, com o propósito de
não deixar que o lulismo termine com a sua morte e a aposentadoria de
Dilma.
A dificuldade reside não apenas no pouco carisma dos
candidatos que inventou, mas sobretudo na inconsistência da proposta
petista, que só se manteve até aqui graças ao carisma do próprio Lula.
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