Renan abre o bolso, mas chia: ‘é diversionismo’
Por mais hábil que seja, o político acaba sempre cometendo alguma sinceridade. Tome-se o caso de Renan Calheiros. Pilhado usando jato da FAB para fins recreativos, disse o que pensa: tenho direito. Pendurado nas manchetes de ponta-cabeça, deu meia-volta. Restituiu R$ 32 mil às arcas federais. Mas mandou divulgar uma nota. No texto, Renan faz beicinho. A prosa de Renan é longa. E a sinceridade só veio no final.
No miolo da nota, Renan jacta-se de ter virado um novo Renan. Diz ter cortado R$ 300 milhões em gastos que o Senado faria no biênio 2013-2014. Empilha os projetos votados “nos últimos dez dias”, em resposta ao ronco das ruas –dos royalties para educação e saúde à ficha limpa no serviço público.
Renan também relaciona os projetos que irão a voto nas próximas sessões. Entre eles o passe livre para estudantes e a extinção do foro privilegiado para congressistas. Ele realça um detalhe: “Estamos realizando sessões de votação também às segundas e sextas-feiras de forma a conferir agilidade e objetividade aos anseios expostos pela sociedade.”
O toque de sinceridade da nota de Renan está nas duas últimas frases. Nesse pedaço do texto, o senador sustenta que, sob sua presidência, o Senado adota “ações e práticas que a sociedade cobra e espera do Congresso Nacional.” E vai ao ponto: “Elas não serão, no mérito ou na agilidade, embaçadas ou prejudicadas por quaisquer diversionismos políticos.”
Quer dizer: Renan devolveu R$ 32 mil ao erário. Mas fez isso por pressão, não por convicção. Continua achando que voar nas asas do contribuinte é um direito que ele tem. Mesmo quando o destino é a recreação. O senador levou a mão ao bolso para ver se as manchetes o esquecem. Amanhã, quando a poeira baixar, some o “diversionismo” e ressurge a diversão.
Vale a pena recordar: Renan acionou o ‘Bolsa FAB’ para comparecer ao casamento da filha do amigo Eduardo Braga, em Trancoso, na Bahia. Aconteceu em 15 de junho, um sábado. Três dias antes, a PM de São Paulo achou que devolveria as ruas às suas casas com bombas de gás e balas de borracha. Acendeu um rastilho que rodou o país e foi bater na laje do Congresso.
A rapaziada já avisou que não desceu ao meio-fio pelos R$ 0,20. Foi empurrada por um sentimento. Renan ainda não se deu conta. Mas, ao chamar de “diversionismo” o notiaciário sobre o abuso com os jatos da FAB, está cutucando esse sentimento com vara curta.
Renan fala de austeridade se fizesse um favor à nação. Não faz. Recebe bons contracheques também para isso. Renan menciona os projetos que leva à pauta como se fizesse jus a aplausos. Engana-se. Meio desconfiada, a plateia grita: “Demmooorooouuuu!!!” Renan informa que os senadores agora trabalham às segundas e sextas. Se fosse verdade, as ruas indagariam: “Por que só agora? Vai até quando?” O diabo é que é meia verdade.
Nesta sexta-feira (5), houve expediente matutino no Senado. Dos 81 senadores, apenas 42 registraram presença. No período da tarde, o plenário tornou-se o próprio oco do ermo do vazio. As fornalhas foram desligadas. Nesse instante, 16h58, a TV Senado exibe uma reprise da sessão de quinta-feira (3) da Comissão de Constituição e Justiça. Ou seja: o novo Senado de que fala Renan é “diversionismo”.

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