Jornalista e produtora registraram 52 pratos tradicionais identificados em todo o Estado
Moqueca de totó - crustáceo de mangue - é preciosidade feita por cozinheira em Itamaracá
Em um momento em que o País leva a gastronomia à luz das discussões no âmbito da cultura, um projeto que resgata e registra em foto, vídeo e texto preparos culinários tradicionais prestes a se extinguirem é algo como um livro de receitas de família, daqueles escritos à mão, passado de geração para geração; ou seja, um verdadeiro tesouro que garante a perpetuação de tradições. Foi exatamente isso o que fizeram a jornalista Patrícia Raposo, editora chefe da Folha, e a produtora Maria Pessoa , da Blue Produções , que acabam de lançar o “Receitas Antigas de Pernambuco”.
Disponibilizado no link www.receitasantigaspe.com.br é um banco de dados com 52 receitas, a maioria quase desconhecida pela população urbana nos dias atuais, mas que décadas atrás eram praticadas com regularidade no Sertão, no Agreste e na Zona da Mata pernambucanos. A ideia de fazer o levantamento surgiu quando Patrícia e Maria constataram que ao voltarem a recantos que faziam parte de suas infâncias, onde comiam esse ou aquele prato, que faziam parte da memória culinária afetiva, já não existiam mais.
Maria Pessoa/Divulgação

É o caso da moqueca de totó, típica de Itamaracá. Para quem nunca ouviu falar, totó é um crustáceo do mangue que só é catado em noite de lua cheia, ocasião em que a maré desce bastante. A dificuldade natural da cata, aliada às atuais facilidades de obtenção de ingredientes do mar e mangue, levaram ao desinteresse e, quase, extinção da caudalosa receita. Como disse, quase. A dupla achou Sônia Ferreira de Lima, moradora de Vila Velha, na Ilha, cozinheira que segue fazendo a moqueca em seu bar ao lado da Igreja Nossa Senhora da Conceição. Há quem diga que o totó é afrodisíaco.
Até os prosaicos biscoitinhos de nata preparados com a gordura do leite de vaca in natura, obtida após o fervimento, já não protagonizam as compoteiras com a frequência de outrora. Uma definitiva mudança de hábito interferiu diretamente em práticas culinárias como essa com o crescimento da indústria alimentícia. Por que, afinal, dispensar tanto tempo para fazer biscoitos? Hoje em dia temos à disposição nata envasada em galões e leite em pó e longa vida (de caixinha). Como se diz, tempo é dinheiro e o que menos se tem hoje é ‘dinheiro’. Contrapondo- e à praticidade de se ter os ingredientes na prateleira do supermercado, o risco de esquecermos os modos originais de receitas que nos traduzem, envolvidas por lembranças e histórias. Sem contar que o resultado de cheiro, cor e sabor nunca será o mesmo daquele saído dos tachos de uma cozinheira ancestral.
VIABILIZAÇÃO - O projeto “Receitas Antigas de Pernambuco” levou um ano para ser desenvolvido e contou com patrocínio integral do Funcultura Independente. Para fazer o mapeamento das receitas, as pesquisadoras visitaram comunidades quilombolas e vilarejos no Sertão pernambucano.
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