sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Por que tentar "esconder" uma vítima de assédio não faz o problema sumir

MasterChef Junior praticamente não mostra a garota de 12 anos que havia sido atacada nas redes sociais, e internautas criticam atitude da emissora. Conta de outro programa da rede também ofende uma menina de 9 anos




Quando uma garota de 12 anos é alvo de assédio sexual em rede nacional, precisamos falar sobre isso. Valentina é uma das participantes do programa MasterChef Junior, da Rede Bandeirantes. Em 20 de outubro, durante a estreia do reality show que busca talentos infantis da culinária, as redes sociais escancararam a pedofilia por meio de perfis fakes. “Se tiver consenso é pedofilia?”, postou um dos usuários. “Viu o Penta do São Paulo, já aguenta”, retrucou outro. 


O caso, que envolve assédio sexual e violência contra a mulher, colocou a criança no centro do debate. “Safada” e “vagabunda” foram alguns dos termos que levaram o nome da menina à lista dos tópicos mais comentados no Twitter.

Se os comentários pedófilos vieram das redes sociais, a resposta na internet veio com mais força ainda. Do blog feminista Think Olga, partiu a iniciativa de fazer com que as mulheres falassem sobre a primeira vez que foram vítimas de assédio sexual. A hashtag #primeiroassédio gerou mais de 82 mil interações no Twitter até o início desta semana.

A campanha engajou personalidades, como a atriz Letícia Sabatella, e organizações, como o Unicef Brasil, que incentivou a denúncia de todo e qualquer caso de assédio. O assombroso resultado escancarou a cultura que cala meninas de todas as faixas etárias. Entre as histórias compartilhadas, a idade média do primeiro abuso foi de 9 anos.

Na contrapartida da mobilização na web, a emissora que transmite o programa parece ter se perdido na discussão. Depois de lamentar as "desagradáveis manifestações de extremo mau gosto" - expressão utilizada pela emissora para se referir à pedofilia em nota de repúdio -, a empresa optou por deixar Valentina em segundo plano na última terça-feira (27/10). A garota passou despercebida na edição do programa, inclusive na avaliação dos dotes gastronômicos.






Ao tentar tornar invisível a vítima de assédio, a emissora agiu ao lado dos opressores, que insistem em dizer que a culpa é da abusada. E, na mesma linha “sem maldade”, até se juntou a eles. No mesmo dia em que a Band calou Valentina, o programa Pânico, que pretende fazer comédia por meio da objetificação da mulher, se referiu à outra participante do MasterChef Junior como “panicat”, uma das assistentes de palco hipersexualizadas do humorístico. Sobre a ofensa a Aisha, de nove anos, a Band afirmou que a conta do Twitter do Pânico havia sido hackeada. A mensagem foi apagada posteriormente.

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