sexta-feira, 25 de março de 2016

MARCO ALBANEZ: "A FÁBULA DO ESCORPIÃO E DO SAPO" - PRIMEIRA PARTE

                                                                                   Por Marco ALBANEZ*                                                                                            
                          “Num determinado dia”, um Escorpião olhou ao seu redor na montanha onde vivia e decidiu que queria uma mudança. Então, partiu numa jornada através de florestas e colinas. Ele passou sobre pedras e sob vinhas e continuou em frente até alcançar um rio – largo e rápido – e parou para reconsiderar a situação. Ele não via nenhum caminho que lhe ajudasse a atravessá-lo, mas correu rio acima, e verificou abaixo, o tempo todo pensando que talvez tivesse que voltar.

                         Mas eis que, “surpreendentemente”, avistou um Sapo sentado nos juncos na margem da correnteza do outro lado do rio. Esperto, cumprimentou o anfíbio (da ordem Anura de predominância terrestre, com pele rugosa) com um “Olá, senhor Sapo!”, para logo depois perguntar: "você faria a gentileza de me dar uma carona nas suas costas para atravessar o rio?"

                         "É complicado, senhor Escorpião! Como sei que, se tentar ajudá-lo, você não vai tentar matar-me?", perguntou o Sapo com hesitação. "Porque", respondeu o Escorpião, "se eu tentasse matá-lo, eu também morreria, pois você bem vê que não sei nadar!"

                         Foi uma resposta enfática e, mentira ou não, ela pareceu fazer e/ou dar sentido ao Sapo, que perguntou: "e quando eu me aproximar da margem? Você ainda poderia tentar me matar e voltar para a terra". "Isso é verdade", concordou o Escorpião, "mas aí eu não seria capaz de chegar ao outro lado do rio!"

                        Mas a dúvida perturbava o Sapo, que lhe respondeu com uma pergunta: "certo... mas como saberei que você não vai esperar até que atravessemos o rio e então me matar?" A resposta do Escorpião foi avassaladora: “ora, porque após você me ajudar a atravessar o rio eu estarei tão grato por sua ajuda que seria incapaz e muito injusto em recompensá-lo com a morte, não seria?"

                        Então o Sapo concordou em levar o Escorpião através do rio. Ele nadou para a margem e se posicionou na lama para pegar o seu “passageiro”. O Escorpião rastejou para as costas do Sapo, suas garras afiadas espetavam o couro macio do Sapo. Em consequência, o Sapo escorregou para dentro do rio. A água lamacenta rodopiou em volta deles, mas o Sapo se manteve próximo à superfície para que o Escorpião não se afogasse. Ele esperneou com força na primeira metade da correnteza... suas patas batendo contra o rio... mas, mesmo assim, lutava para salvar o seu algoz.

                       De repetente, o Sapo sentiu uma forte picada. Aconteceu o que ele já imaginava, mas “não acreditava”: o Escorpião o havia espetado. "Por que você fez isso", perguntou ele, "se você me ferrou, vamos nos afogar". O Escorpião respondeu: "perdoe-me, mas não posso evitar, pois é de minha natureza. Mas fique tranquilo que não farei de novo”. E o Sapo continuou a nadar. Alguns minutos depois, sentiu outra ferroada. "Escorpião", disse ele, “se você ferroar não poderei levá-lo através do rio e, como disse, nos afogaremos”.
                     "Não foi minha intenção", disse o Escorpião, “renovando a sua índole”: "é de minha natureza, mas não acontecerá de novo".

                     Eles já estavam quase do outro lado do rio, quando o Sapo sentiu uma terceira ferroada, aguda, nas suas costas, e do canto de seus olhos viu o Escorpião retirar o ferrão. Um torpor intenso começou a lhe afetar os membros.

                    "Seu canalha, ingrato, traidor!", esbravejou o Sapo, "agora morreremos! Por que você fez isso quando disse que não faria de novo?"
                    O Escorpião encolheu os ombros e saltitou nas costas do Sapo que se afogava e disse:

"Não pude evitar. É de minha natureza."

                    E ambos afundaram nas águas lamacentas do rio veloz. E morreram. Sem “lenços ou documentos” e, principalmente, sem testemunhas.

                    Com certeza, a maioria dos “meus seis leitores” conhece essa fábula.  Mas – lembram-se que em tudo há sempre um “mas”? –, lá no alto de uma árvore, um passarinho, que a tudo assistia, fazia as suas anotações: quem, onde e aonde, o porquê, como...

                    Acontece que as anotações do passarinho é o outro lado dessa fábula que poucos conhecem e que será motivo da segunda parte deste artigo.
        
*Marco ALBANEZ
É advogado (OAB-PE nº 7.658) e jornalista (AIP nº 2.163 e DRT/PE nº 3.271)


2 comentários:

  1. Caro Marco Albanêz, essa fábula traduz com precisão o modo de agir da maioria dos nossos representantes, na administração pública!

    Abraço,

    Severino Melo

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  2. EU IMAGINO COMO SERÁ O RESTO DA HISTÓRIA.

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