quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"A morte com dignidade era a melhor opção", diz americana que planeja suicídio assistido

A americana de 29 anos Brittany Maynard tem câncer terminal e decidiu morrer no dia 1º de novembro. Ela conseguiu a permissão para recorrer ao suicídio assistido e lançou uma campanha para defender o direito das vítimas de doenças terminais de escolher quando e como querem partir

ISABELLA CARRERA
Brittany Maynard no vídeo que tornou sua história conhecida (Foto: Reprodução)
A psicóloga americana Brittany Maynard começou a ter enxaquecas fortes e recorrentes no final de 2013, pouco tempo depois de se casar com Dan Diaz e em meio à tentativa de engravidar. Em janeiro deste ano ela foi diagnosticada, aos 29 anos, com um dos tipos mais graves de tumor cerebral maligno, chamado glioblastoma. Brittany logo foi submetida a duas cirurgias, que contiveram o câncer e renderam-lhe um prognóstico de mais dez anos de vida. Em abril, porém, os médicos constataram que o tumor voltou maior e mais agressivo. O prognóstico de vida mudou para só seis meses.

Pesquisando as opções de tratamento, ela percebeu que a única alternativa para o seu caso era a radiação do cérebro, cujos efeitos colaterais incluíam perda de cabelo, queimaduras na pele e uma limitação drástica da qualidade de vida da qual ela desfrutava até então. Mesmo assim, as chances de ela ser curada eram quase nulas. “Eu provavelmente sofreria em um hospício por semanas ou até meses. E minha família teria de assistir a isso”, disse.
Foi então que Britanny tomou a decisão de recorrer ao suicídio assistido, prática médica que permite, em termos legais, o paciente com câncer terminal a tirar a própria vida no momento em que desejar. O procedimento é permitido por lei em cinco estados americanos: Montana, Novo México, Vermont, Washington e Oregon. Outros sete distritos estão estudando projetos similares. No começo do ano, ela se mudou junto à família da Califórnia, onde morava, para a cidade de Portland, em Oregon. Lá, poderia viajar a lugares que sempre quis conhecer e passar seus últimos dias em paz ao lado de quem gosta.
Em um artigo que escreveu para o site da emissora CNN, ela disse: "Depois de meses de pesquisas, minha família e eu chegamos a uma conclusão dolorosa: não existe um tratamento que possa salvar minha vida, e os tratamentos que me foram recomendados destruiriam o tempo que me resta". Em seguida, afirmou: "Decidi que a morte com dignidade era a melhor opção para mim e minha família."
Esta semana, Brittany definiu o dia 1º de novembro como a data em que pretende morrer, caso seu estado não melhore de um jeito significativo até lá. Ela também afirmou que deseja se despedir da mãe, padastro, marido e melhor amiga, que estão acompanhando a moça, deitada em sua própria cama. Segundo ela, as dores, perdas de memória e articulação da fala estão cada vez piores. Mesmo assim, Britanny gostaria de esperar pelo aniversário do marido, dia 26 de outubro. “Acho que demorou um pouco para a minha família entender que isso tudo fazia sentido porque ninguém quer ouvir que sua filha vai morrer”, disse a americana, hoje apoiada por seus familiares. “Como o resto do meu corpo é jovem e saudável, pode ser que eu aguente fisicamente por um bom tempo enquanto o câncer vai corroendo a minha mente”.
A história ficou famosa quando um vídeo (abaixo), no qual ela explica sua escolha, passou a ser compartilhado nas redes sociais (7 milhões de visualizações), levantando um debate polêmico sobre até que ponto a decisão de morrer deve caber inteiramente à pessoa doente. Maynard também vem trabalhando como voluntária do Compassion & Choices e criou aBrittany Maynard Fund, ambas organizações defensoras do direito à eutanásia e à morte com dignidade.


A permissão do suicídio assistido
Quando escolheu se mudar para Oregon e aderir à eutanásia, Britanny teve de arranjar uma nova casa, novos médicos, nova carteira de motorista e novo título de eleitores, entre várias outras mudanças. “O tamanho do sacrifício pelo qual minha família teve de passar para me dar o acesso legal à morte com dignidade [é imenso]. Existem muitos americanos que não têm o tempo ou habilidade financeira [para isso] e eu não acho certo ou justo [que isso aconteça]”.
Os estados americanos que hoje dispõem da eutanásia legal exigem que o paciente seja adulto, esteja doente em caso terminal, tenha um prognóstico de no máximo seis meses de vida e more em uma das cinco regiões autorizadas para podere se candidatar ao procedimento. Ele deve submeter dois requerimentos verbais, com 15 dias de diferença, para provar que não está fazendo um pedido precipitado. Médicos avaliam então as condições físicas e psicológicas dele. Se aprovado como um indivíduo são para tomar decisões médicas, ele precisa ainda autenticar com testemunhas o seu pedido formal por escrito. Liberada a morte com dignidade, as doses de barbitúrico, droga cedida pelo governo para realização da eutanásia e que demora cerca de 25 minutos para agir, pode ser obtida dentro de 48 horas. A partir daí, o paciente tem a liberdade de decidir quando quiser tomar o remédio.
Britanny anda com a sua receita, escrita por um clínico de Oregon, dentro da carteira. Seu caso, porém, é incomum comparado aos registros no estado, que oficializou a lei em 1997. Das mais de mil pessoas que requisitaram o término voluntário da vida desde então, metade seguiu em frente. Entre estas, a idade média era de 71 anos e somente 1% do total tinha uma idade similar à de Maynard.
 
Brittany ao lado do marido, Dan, em seu casamento.  (Foto: Reprodução)

Repercussão
Brittany foi criticada por internautas, que acharam sua medida drástica, prematura e contra valores morais e religiosos. Especialistas também se mostraram preocupados com a possibilidade que pessoas clinicamente depressivas aproveitem-se da lei da eutanásia. De acordo com uma enquete feita não passado pela revista científica New England Journal of Medicine, cerca de 67% dos experts entrevistados nos Estados Unidos são contra a prática. 
Houve também quem não entendesse o desejo da americana de encurtar a vida, sem ter certeza por quanto tempo ela estaria relativamente bem. “Eu estou com os medicamentos há semanas. Não sou suicida. Se fosse, já teria os consumido há muito tempo. Eu não quero morrer. Mas estou morrendo. E quero morrer sob minhas próprias condições”.
Em compensação, a hashtag #brittanymaynard foi tuitada milhares de vezes na semana passada em apoio à causa da moça. “Eu não mandaria outras pessoas escolherem a morte com dignidade. Minha questão é: quem tem o direito de me dizer que eu não mereço essa escolha? Que eu mereço sofrer por semanas ou meses sob uma dor física e emocional tremenda? Por que alguém teria o direito de decidir isso por mim?”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário